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Amazônia brasileira já perdeu um território equivalente ao de duas Alemanhas em 30 anos de desmatamentos e a devastação continua, célere

De agosto a novembro de 2018 a Amazônia perdeu 287 quilômetros quadrados de florestas, um aumento de 406% se comparado ao mesmo período do ano anterior, quando o desmatamento somou 57 quilômetros quadrados. Os dados são do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), que divulga mensalmente relatórios do Sistema de Alerta do Desmatamento (SAD).

O Estado do Pará contribuiu com 63% dos alertas de desmatamento. As áreas que mais sofreram destruição encontram-se principalmente no nordeste do estado, na região da Terra do Meio, e no oeste com alta concentração de alertas na região da Calha Norte (área que reúne o maior bloco de florestas protegidas do mundo).

Desde 1988, quando o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), de São José dos Campos (SP), começou o programa contínuo, o sistema de monitoramento revelou que o Brasil já desmatou um total de 783 mil quilômetros quadrados de Floresta Amazônica – área duas vezes maior que o território da Alemanha. Em 2018, a taxa foi a mais alta da última década: 7,9 mil quilômetros quadrados, dos quais cerca de 95% correspondem a cortes ilegais.

A história da vigilância por satélites começou às avessas, no fim dos anos 1970, durante a ditadura militar, quando os dados passaram a ser monitorados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE, com sede em São José dos Campos, São Paulo.) quando Inicialmente o sistema implantado media se os desmatamentos para pastos ocorriam conforme os planos do regime militar. Com o tempo, pressão internacional e a tecnologia levaram a um maior controle dos desmates.

Anos mais tarde, o cenário mudou. “O país passou a sofrer uma grande pressão internacional por conta dos investimentos que estavam acabando com a Amazônia”, recorda Dalton de Morisson Valeriano, pesquisador que ajudou a implantar o sistema de controle dos desmatamentos na floresta.

Numa região do Maranhão onde a Floresta Amazônica começa a dominar a paisagem, uma área de mata nativa acaba de ser destruída. O solo – agora exposto – aparece na tela de um dos computadores da equipe que monitora o desmatamento da maior floresta tropical do mundo, espalhada por nove estados brasileiros. O dano ambiental é revelado nas imagens de satélite capturadas no dia anterior interpretadas por profissionais que estão a mais de dois mil quilômetros da mata recém-cortada.

O trabalho de análise minucioso é feito em São José dos Campos, interior de São Paulo, de onde o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais acompanha há 30 anos a taxa anual de desmatamento da Amazônia.

Em 1988, as imagens registradas por um satélite americano chegavam ao INPE impressas em papel. Eram necessárias 229 fotos, cada uma com cerca de 90 cm x 120 cm, para analisar toda a Amazônia. “Tivemos que lidar com todas essas limitações e vencer a desconfiança internacional”, afirma a pesquisadora Thelma Krug, uma das criadoras do sistema e atual vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). “Temos hoje um programa consolidado. Governo nenhum ousaria mais duvidar dos dados”, acrescenta.

Atualmente, dados de três satélites são usados pelos pesquisadores: Landsat8, dos Estados Unidos; Liss3, da Índia; e Cbers4, resultado de uma parceria entre Brasil e China. Desde 2003, o trabalho foi digitalizado, e dois programas monitoram a Amazônia simultaneamente. Os Prodes calcula as taxas anuais de desmatamento, e o Deter B, que “enxerga” a floresta com melhor resolução, aponta onde o corte está sendo realizado no momento em que ele acontece.

O avanço da ciência permitiu mudanças na fiscalização. “De início, equipes iam a campo de carro e faziam percursos nas estradas tentando identificar visualmente o desmatamento”, diz Jair Schmitt, diretor do Departamento de Florestas e de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente.

Três décadas depois, fiscais acompanham em tempo real – de Brasília – os alertas detectados pelo sistema do Inpe. “Observamos as áreas que estão em evolução e mandamos uma equipe para evitar que a floresta caia”, detalha Renê Luis de Oliveira, coordenador de fiscalização do Instituto Brasileiros do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama

Os desmatadores também se adaptaram à evolução do sistema. O corte de árvores em grande escala foi substituído por áreas menores para dificultar que os satélites consigam “enxergá-los; “Antes, trabalhávamos com seis áreas mais críticas, agora são 13. O desmatamento está mais pulverizado e em novos locais”, diz Oliveira. “A gente precisa de mais equipes para combater por meio da fiscal

No cenário político, o principal impacto do sistema surtiu efeito a partir de 2004. Foi o ano em que o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) entrou em vigor e as taxas começaram a cair. “Quando se olha para o histórico, reduzimos em 72% o desmatamento da Amazônia. A fiscalização foi instrumento para induzir essa redução”, afirma Schmitt.

Nos últimos quatro anos, por outro lado, os números voltaram a subir. Além da fiscalização, Schmitt acredita na força do mercado para barrar essa tendência. “Vemos o mercado rejeitando cada vez mais produtos que vêm de áreas de desmatamentos, forçando a legalidade. Também precisamos trabalhar mais em incentivos econômicos para quem conserva e punições severas para quem desmata”, opina.

De olho nas análises em tempo real feitas por sua equipe, Cláudio Almeida demonstra preocupação com o que os satélites mostram. “Ainda não estamos vendo uma queda”, comenta sobre os dados observados na Floresta Amazônica que farão parte das futuras estatísticas.

A meta é o desmatamento zero. Antes que seja tarde demais.

Ronaldo Brasiliense
Ronaldo Brasiliense é o repórter mais premiado da Amazônia nos últimos trinta anos. Conquistou os maiores prêmios da imprensa brasileira em uma carreira marcada por reportagens denunciando a corrupção, a malversação do dinheiro público, em defesa da democracia, dos direitos humanos, da preservação do meio ambiente e da cultura dos povos da floresta. Atualmente, Ronaldo Brasiliense é presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos (AALO) e da Associação Cultural Obidense (ACOB), que administra o Museu Integrado de Óbidos e promove anualmente o Festival do Jaraqui, além de executar obras com o apoio da sociedade civil obidense e do poder público municipal, como a atual revitalização do histórico Forte Pauxis, marco de fundação da cidade de Óbidos.

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