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Sou de um tempo em que não havia Estação Rodoviária em São Braz, mas sim uma Ferroviária, de onde outrora saíam os trens pela estrada de ferro de Bragança. Esta era a Belém onde nasci, terra da minha infância querida, que os anos não trazem mais.

A Belém das avenidas Independência (atual Magalhães Barata) e São Jerônimo (hoje, a governador José Malcher), por onde nos dirigíamos ao comércio no Centro da cidade.

Naqueles tempos a João Alfredo era a principal rua do comércio de Belém e ainda podíamos ver, encantados, os velhos casarões com seus lindos e decorados azulejos portugueses na Santo Antônio, na 13 de Maio, na Campos Sales, na Frutuoso Guimarães, na Manuel Barata – hoje tomadas por barracas de camelôs.

Vivi para ver uma Belém sem engarrafamentos no trânsito, sem carros estacionados no meio da rua, com o pisca-alerta ligado, atravancando o tráfego. Não havia carros fechando os sinais, a buzina era objeto para as grandes necessidades.

A Belém do túnel de mangueiras das avenidas Nazaré e Generalíssimo Deodoro, da Praça da República, da Presidente Vargas – que tanto encantaram o poeta pernambucano Manuel Bandeira em sua estada na capital paraense – e que hoje estão cada vez mais ameaçadas, seja por ervas de passarinho, seja pelos cortes irresponsáveis da empresa de energia elétrica.

Segunda maior cidade da Amazônia em termos populacionais, com 1,5 milhão de habitantes (Manaus, no Amazonas, tem quase dois milhões), Belém sofre ainda hoje, 402 anos após sua fundação pelo capitão-mor português Francisco Caldeira Castelo Branco, os efeitos de sua localização militarmente estratégica para a defesa da calha do rio Amazonas, mas cheia de problemas por ter 40% de seu território abaixo da cota quatro do nível do mar

Fundada sobre uma região pantanosa, cortada por uma infinidade de igarapés, cercada pelo rio Guamá de um lado, a baía do Guajará de outro, e os rios Pará e Maguari, por outra vertente, Belém padece com as inundações – principalmente durante o “inverno amazônico” – entre dezembro e maio – quando há coincidências entre chuvas torrenciais e maré alta.

Nossa Belém do mercado do Ver-o-Peso, com seus cheiros e cores, do cupuaçu, do bacuri, da graviola, do taberebá, do uxi, do açaí, da bacaba, da castanha-do-pará…

A Belém do forte do Presépio, do centenário Theatro da Paz, da Catedral da Sé, da Basílica de Nazaré, da Igreja de Santo Alexandre – relíquias arquitetônicas preservadas por séculos, cenários da maior procissão de fé Mariana do mundo – o Círio de Nossa Senhora de Nazaré.

O Círio, Natal dos Paraenses, quando um forte cheiro de maniva cozida impregna o ar da cidade e o povo desta terra se mostra o mais hospitaleiro do planeta. Tempos de solidariedade, fraternidade e paz.

Minha Belém querida, que os tempos não trazem mais, muito obrigado por existir

Belém, Metrópole da Amazônia.

Bem-be-le-lem, eu te quero bem!

Ronaldo Brasiliense
Ronaldo Brasiliense é o repórter mais premiado da Amazônia nos últimos trinta anos. Conquistou os maiores prêmios da imprensa brasileira em uma carreira marcada por reportagens denunciando a corrupção, a malversação do dinheiro público, em defesa da democracia, dos direitos humanos, da preservação do meio ambiente e da cultura dos povos da floresta. Atualmente, Ronaldo Brasiliense é presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos (AALO) e da Associação Cultural Obidense (ACOB), que administra o Museu Integrado de Óbidos e promove anualmente o Festival do Jaraqui, além de executar obras com o apoio da sociedade civil obidense e do poder público municipal, como a atual revitalização do histórico Forte Pauxis, marco de fundação da cidade de Óbidos.

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