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Passava das 15 horas e eu tomava sol no quintal da minha casa em Óbidos, por recomendação médica, quando bateram à porta. Atendi sem camisa. Quatro policiais civis do Pará – um delegado, um escrivão e dois investigadores, uma mulher.

O delegado Silvio Biro leu pausadamente o Mandado de Busca e Apreensão da lavra do juiz Heyder Tavares da Silva Ferreira, titular da primeira Vara de Inquéritos Policiais e Medidas Cautelares de Belém, a capital, a 800 km da minha Macondo amazônica, Óbidos, aqui na parte mais estreita e profunda do Rio Amazonas, no oeste do Pará…

Questionei ao delegado: – Vocês buscam o que na minha casa?

O mandado do magistrado é claro como um carvão: “Descoberta a coisa que se procura, será imediatamente apreendida e posta sob custódia da autoridade ou de seus agentes, devendo os executores, finda a diligência, lavrar auto circunstanciado, assinando com duas testemunhas presenciais.”

Indaguei ao delegado:

– Que “coisa” é essa? Nem ele soube dizer.

– Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, gracejei.

Os policiais passaram então a revirar o único quarto da casa em busca da “coisa” que o juiz Heyder Tavares queria.

Pegaram logo o meu lap top Dell – meu instrumento de trabalho -, mas deixaram a fonte da bateria. Depois pegaram o celular Motorola que estava carregando no criado-mudo da minha cama. Acharam dentro de outro armário um outro lap top HP, que não uso há anos.

Pegaram também 128 exemplares da Revista Pará em Foco, onde na capa aparece estampada a foto do então candidato ao governo do Estado pelo MDB com a manchete: “Helder cai na Lava Jato”, sobre a denúncia feita pelo presidente da Odebrecht Ambiental, Fernando Reis, que o filho do honestíssimo senador Jader Barbalho tinha recebido R$ 1,5 milhão em três parcelas de R$ 500 mil, de caixa dois, para sua campanha, denuncia reafirmada pelo diretor-superintendende da empresa, Mario Amaro da Silveira. A denuncia deu origem a uma ação penal, que dorme até hoje em berço esplêndido na gaveta de uma juíza do Tribunal Regional Eleitoral.

Falei para os policiais, muito cordiais, que a minha maior preocupação será reaver os arquivos do meu computador.

Lá estão registrados 43 anos de uma carreira de repórter sem máculas, o mais premiado da Amazônia neste século segundo o Ranking nacional do Portal dos Jornalistas Brasileiros (Jornalistas e Cia). Detentor de dois Prêmios Esso – o mais importante da imprensa brasileira -, duas vezes vencedor do Prêmio AMB, da Associação dos Magistrados Brasileiros, entidade onde Heyder Tavares deve ser filiado.

Também ganhei os prêmios Embratel, Petrobras, Abril, Aimex, OK e muitos outros, sempre na linha de frente no combate à corrupção nos governos, em defesa dos direitos humanos, do meio ambiente, da minha Amazônia.

Contei para o delegado que nos computadores estão histórias de escândalos em Brasília, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Belém do Pará, em todos os Estados da Amazônia, onde em 43 anos trabalhei no O Estado do Pará, na A Província do Pará, como chefe da sucursal da Veja na Amazônia, na IstoÉ, no Jornal do Brasil, em O Estado de São Paulo, e no Correio Braziliense – em Brasília e no Rio de Janeiro, e como correspondente de O Globo na Amazônia.

Trabalho com informação, sou respeitado nacionalmente, tenho o reconhecimento na minha categoria. Perguntem para Laurentino Gomes, Ricardo Noblat, Teodomiro Braga, Mario Rosa, Marcelo de Moraes e muitos outros companheiros de luta na imprensa brasileira.

Achei curioso que, nas três horas em que passaram na minha casa localizada ao lado da Catedral de Óbidos, nem o delegado Silvio Biro, nem o escrivão Kennedy Bento, nem a investigadora Fabiana Barbosa – todos muito cordiais, repito – falaram em fake news, o que eu suponho ser a “coisa” que interessaria ao juiz Heyder Tavares.

Meu quarto ficou uma bagunça, todo remexido, mas fiquei feliz ao ver que meus arquivos em papel foram poupados.

Serão as ilustrações para o livro “A Quadrilha”, que conta a história real de uma família de políticos paraenses que enriqueceu no poder assaltando os cofres públicos.

Não passarão.

Fotos da minha casa, após a Operação, podem ser vistas nas imagens que ilustram essa matéria.

Ronaldo Brasiliense
Ronaldo Brasiliense é o repórter mais premiado da Amazônia nos últimos trinta anos. Conquistou os maiores prêmios da imprensa brasileira em uma carreira marcada por reportagens denunciando a corrupção, a malversação do dinheiro público, em defesa da democracia, dos direitos humanos, da preservação do meio ambiente e da cultura dos povos da floresta. Atualmente, Ronaldo Brasiliense é presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos (AALO) e da Associação Cultural Obidense (ACOB), que administra o Museu Integrado de Óbidos e promove anualmente o Festival do Jaraqui, além de executar obras com o apoio da sociedade civil obidense e do poder público municipal, como a atual revitalização do histórico Forte Pauxis, marco de fundação da cidade de Óbidos.

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