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A gestão da pandemia do novo coronavírus no Pará, pelo governador Helder Barbalho (MDB), transformou-se numa sucessão de escândalos.

Aproveitando-se da decretação do Estado de Calamidade Pública no Pará e a consequente abertura para fazer compras com dispensa de licitação, Helder Barbalho aloprou.

Nunca antes na história do Pará se viu tantos escândalos em tão pouco tempo, todos devidamente registrados no Diário Oficial do Estado. Vamos a eles:

01. Cestas básicas superfaturadas

A pandemia da corrupção começou em março, com a aquisição de 535 mil cestas básicas por R$ 73,9 milhões de uma empresa, a Kaizen, com capital social de apenas R$ 79 mil, cuja sede, soube-se depois, seria num terreno baldio no município de Ananindeua, na região metropolitana.

Pagando R$ 136,00 por uma cesta básica para distribuir entre os estudantes da rede estadual – quase três vezes mais do que cestas básicas oferecidas pelas redes de supermercado de Belém – Helder Barbalho foi denunciado nas redes sociais e recuou, anulando a compra, mas não evitou que a Polícia Federal nesta quarta-feira, 18 de junho, invadisse a sede da Secretaria de Educação do Pará para apreender computadores e documentos referentes à negociata.

02. Respiradores mecânicos imprestáveis

Cumprindo mandado de busca e apreensão expedido pelo ministro Francisco Falcão, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), a Polícia Federal apreendeu computadores, documentos e o telefone celular de Helder Barbalho, na sua luxuosa mansão do condomínio Lago Azul, em Ananindeua, e também o aparelho de sua mulher, Daniela Barbalho.

No celular de Helder estariam as provas da conversa que deu origem à negociata para a compra de 400 respiradores mecânicos na China, pela empresa SKN, por R$ 50,4 milhões – R$ 126 mil por unidade, quase três vezes mais do que outros Respiradores mecânicos similares comprados pelo próprio Ministério da Saúde.

Pelo telefone, Helder Barbalho conversa com um dos sócios da SKN – amigo de muitos anos – acerta o negócio e o encaminha para o chefe da Casa Civil do governo do Pará, Parsifal Pontes, que teria sido o responsável pela elaboração da minuta do contrato.

O secretário de Estado de Saúde, Alberto Beltrame, inexplicavelmente teria sido colocado à margem da negociação, até prova em contrário.

Helder Barbalho postou, posteriormente à negociata, em suas redes sociais, que seu celular teria sido clonado.

A SKN recebeu um adiantamento de R$ 25,2 milhões – 50 por cento de um total de R$ 50,4 milhões – mas entregou apenas 152 Respiradores mecânicos, todos imprestáveis para o combate à pandemia da Covid 19.

A SKN, que também recebeu R$ 4,2 milhões referentes à compra de oxímetros, se comprometeu a devolver o dinheiro, em acordo judicial, mas não o fez em sua totalidade.

A negociata está sendo investigada em inquérito aberto pela Polícia Federal, com autorização do ministro Francisco Falcão, do STJ.

Na operação Para Bellum, a Polícia Federal invadiu a mansão do governador Helder Barbalho e o Palácio do Governo – algo inédito na história do Pará – e apreendeu R$ 748 mil na residência do secretário adjunto de Saúde, Peter Cassol, além de ter cumprido mandado de busca e apreensão nas casas do secretário de Saúde, Alberto Beltrame; na casa chefe da Casa Cívil, Parsifal Pontes, e na do secretário de Estado da Fazenda, entre outros.

03. Super aluguel de ambulâncias sob suspeita

No dia oito de maio passado, em pleno pico da Pandemia Covid 19 no Pará, o governo Helder Barbalho (MDB) publicou no Diário Oficial do Estado (DOE) um contrato de aluguel de ambulâncias que surpreendeu a todos pelos valores absurdos.

De uma só canetada, bem a seu feitio, Helder Barbalho aluguel oito ambulâncias para transportar pacientes infectados pelo novo coronavirus por R$ 7,8 milhões, por um período de quatro meses.

O custo unitário mensal de cada ambulância saiu por R$ 245.000,00 (Duzentos e quarenta e cinco mil reais). Na mesma semana, o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho alugou ambulância pagando apenas R$ 6.200,00 por mês. Trocando em miúdos: com os R$ 245 mil pagos por Helder Barbalho por uma ambulância, Zenaldo Coutinho poderia alugar uma frota com 40 ambulâncias.

O suspeito contrato de aluguel de ambulâncias acabou ganhando repercussão nacional no programa Sikera Jr.

Tudo leva a crer que, desta vez, a dispensa de licitação por causa da decretação de Estado de Calamidade Pública no Pará tratou-se de uma ação entre amigos.

O portal Roma News denunciou que a empresa vencedora do contrato 44/2020, que prevê o pagamento de R$ 7,8 milhões pela locação de oito ambulâncias para ações de enfrentamento à covid-19 no Pará, pertence a amigos do governador Helder Barbalho.

Lucas Vaz Veras, diretor-geral do Centro de Atendimento de Serviços Médicos Rios Vaz – Medclin, uma empresa de pequeno porte cujo capital social é de apenas R$ 100 mil, não só apoiou a campanha de Helder ao governo do Estado, em 2018, como esteve em sua posse, como se vê nas imagens postadas pelo próprio Veras em suas redes sociais.

De acordo com os termos do contrato publicado na edição do dia 8 de maio e republicado quatro dias depois no Diário Oficial do Estado, a Medclin, cuja única sócia atende pelo nome de Claudia Rio Vaz e é tia de Veras, vai receber R$ 7.840.000,00 para prestar os serviço de transporte de pacientes de covid-19 nos município de Belém, Breves, Marabá e Santarém, onde foram implantados os hospitais de campanha por Helder Barbalho.

A Medclin só ganhou o contrato, sem licitação, depois que uma segunda empresa – que havia proposto menos da metade desse valor, mudou sua proposta subindo o custo total do serviço de R$ 3,6 milhões para R$ 9,3 milhões.

A proposta inicial da Medclin era de R$ 12,9 milhões, chegando aos pouco mais de R$ 7,4 milhões que vai receber após uma segunda chamada para apresentação de propostas.

O contrato, feito com base no decreto de emergência por causa da pandemia, foi feito com dispensa de licitação.

Não vou estranhar se a Polícia Federal baixar em Belém mais uma vez, nas próximas semanas, para passar a limpo mais esta suposta ação entre amigos.

Ronaldo Brasiliense
Ronaldo Brasiliense é o repórter mais premiado da Amazônia nos últimos trinta anos. Conquistou os maiores prêmios da imprensa brasileira em uma carreira marcada por reportagens denunciando a corrupção, a malversação do dinheiro público, em defesa da democracia, dos direitos humanos, da preservação do meio ambiente e da cultura dos povos da floresta. Atualmente, Ronaldo Brasiliense é presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos (AALO) e da Associação Cultural Obidense (ACOB), que administra o Museu Integrado de Óbidos e promove anualmente o Festival do Jaraqui, além de executar obras com o apoio da sociedade civil obidense e do poder público municipal, como a atual revitalização do histórico Forte Pauxis, marco de fundação da cidade de Óbidos.

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